Idéias em fuga

Esta semana minhas idéias pregaram-me uma peça. Apoiando os cotovelos sobre a mesa eu me esforçava para escrever o texto que deveria apresentar ao meu editor, me esforçava, mas de alguma forma as idéias haviam fugido. Antes de pegar minha boa caneta esferográfica e meu bloco de anotações. Antes mesmo de preparar minha xícara de cappuccino. Antes dessas ações corriqueiras eu tinha o texto todo estruturado em minha mente, como se fosse uma maquete eletrônica, um grande modelo arquitetônico em três dimensões. Eu o girava em minha cabeça, corrigindo certos pontos, acrescentando outros. Quando achei que ele estava pronto para nascer, quando me sentei para dar à luz a mais um filho, ele desapareceu, simplesmente sumiu. Olhei meu rosto estupefato no espelho de meu escritório. E agora? Para onde foram as idéias, como isso pode acontecer? Eu simplesmente não sabia. Resolvi então arejar a cabeça um pouco, era a única saída. Peguei meu casaco e fui dar uma volta no grande e belo jardim que se estende atrás de casa. Eu chamo aquilo de floresta, meu pai é que insiste em dar o nome de jardim. Andei um pouco e sentei-me recostado na grande jabuticabeira. De repente, enquanto viajava em meus devaneios mentais, um som um tanto esquisito chamou minha atenção, um som parecido com crianças brincando. Levantei-me e fui atrás daquele barulho de natureza peculiar. Então, ao chegar um pouco mais perto, vi a coisa mais estranha da minha vida. As minhas idéias, verdinhas, fazendo estripulias na relva. Escondi-me rapidamente para não espantá-las. Só então pude entender porque não havia conseguido escrever meu texto: verdes, minhas idéias ainda não estavam prontas para serem colhidas e colocadas no papel. Deixei-as sossegadas divertindo-se enquanto voltava aliviado para casa. Quando cheguei dormi um bom sono, e ao acordar podia sentir que as safadinhas já haviam voltado para mim. Eu podia senti-las pululando de um lado para outro em meu cérebro, prontas para serem jogadas no papel. Levantei-me, fui até o escritório, sentei em frente ao computador e liguei-o com um sorriso embriagado em minha cara.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 21/6/08. p.3)

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