Meus amigos conhecem meu comportamento, sabem que prezo pela verdade dos fatos, minha visão, meu ponto de vista. Sabem que meu encantamento pela anatomia da existência, pelo farfalhar das folhas e pela comunicação entre os insetos é mais do que um hobby pueril, um passatempo para adolecentes. Enquanto escrevo este relato posso sentir os efeitos do oxigênio que respirei há poucos instantes e que deve chegar ao ápice do seu efeito em vinte ou trinta minutos. Até lá a minha percepção poderá se alterar e algum detalhe do meu relato poderá ficar irremediavelmente deturpado. É uma anestesia contínua, diária, que devora minha vontade há anos. Felizmente escrevo isso de um ponto futuro, amarro os fatos, combino as palavras, me esmero na capacidade de reabilitação.
Síndrome do encarceramento
O mecanismo parece estar quase completamente restabelecido. Com seus tubos, câmaras, válvulas, fluidos, sensores… A pane anterior abre espaço para o funcionamento mais harmônico do conjunto. É claro, tomei as decisões corretas no decorrer do processo para conseguir atingir este novo desempenho. Alguns componentes podem ter ficado irremediavelmente danificados, mas só saberei disso dentro de alguns anos. Ou, se tiver sorte, poderei ainda aproveitar o seu bom funcionamento por um longo período até o desligamento automático. Poderia viajar para a Moldávia e comprar alguns componentes novos no mercado negro, no entanto odeio vestir aquele avental branco aberto nas costas.
O rumor da língua
Não há como negar minha participação no crime. É claro, falo isso para vocês, que nunca terão coragem de informar as autoridades sobre os meus atos. Também não há provas, pois cuidei de limpar cada traço das minhas ações. A operação durou três ou quatro anos, mas foi diária, contínua. Por vezes quase fui descoberto, mas tratava de convencê-la que eram apenas experimentações inócuas, e que meus atos não de repetiriam. Durante todo este tempo, comportei-me como um zumbi teleguiado interessado no prazer anestésico das minhas sórdidas ações. Assumi riscos. Minha auto-reabilitação tem sido dolorosa.
Dor
Pensei numa abordagem mais indireta, para esquecer o que estou sentindo nos últimos dias. Mas não seria justo com meu corpo, que tenta se reconstruir, mas não me perdoa e tenta me expulsar. Não posso abandoná-lo, não posso desistir, preciso aprender a conviver com a dor. As dores são reais, todo o resto é ficção. Sendo real, a dor não pode ser compartilhada, é sua. A dor do outro transforma-se em outro tipo de dor ao ser assimilada por você, no entanto nunca será igual, apenas uma representação da sua dor.
Corpo
Automóveis movimentam-se na mesma velocidade das nuvens. O Sol laranja forte começa a aparecer, saindo detrás das montanhas lá na ilha. Vem rápido. Esta foi uma das piores noites da minha vida, dormi pouco, rastejei na cama. Senti frio e calor ao mesmo tempo, impossível de separar. Meu corpo está em curto, avariado e espero: em recuperação. Não posso esquecer da autodestruição que comandei nos últimos anos. Permanecerei.
O primeiro dia
Os próximos dias serão difíceis. Assim como o sol, meus fluídos corporais e órgãos elásticos ainda estão adormecidos, por isso não começaram a se rebelar contra mim. E ainda não formulei nenhum plano de ação. Será como entrar na selva descalço e em traje de banho, contando apenas com a força de vontade, que nunca foi meu forte.
A parte do fogo
Como pode a existência se empenhar totalmente no cuidado de ordenar certo número de palavras? Esta obsessão é impressionante, mas sabemos que não é tão rara assim. O que me falta é disciplina… Os esquilos não vencem os desafios por boas maneiras!
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Mais um post avulso, mas agora tenho a liberdade de usar mais do que 144 caracteres. Pensarei em enumerar os capítulos, quem sabe. Sempre estabelecendo limites, blergh!