A cura pela internet

A internet está aí para tirar as dúvidas, não é mesmo? E os médicos não gostam muito, pois muitos clientes chegam ao consultório armados até os dentes com informações das mais variadas, com o diagnóstico preciso para discutir com o doutor, que olha pra eles desconfiado e amaldiçoa a internet.

Um sujeito foi consultar o oftalmologista: “Dr., suspeito que tenho um ordéolo na pálpebra, um tipo de nódulo de poucos milímetros causado pela inflamação de uma das glândulas sebáceas que produzem a lágrima”. O médico abandonou o olhar que mantinha no computador, como se ainda não houvesse detectado a presença de outro ser humano na sala e falou: “Como você sabe disso, já estudou medicina?” “Não senhor, mas dei uma boa pesquisada na internet e encontrei um artigo ilustrado que parecia exatamente com o meu problema.” O médico riu com desdém e falou que era por isso que não gostava da internet, pois os pacientes tinham a mania de procurar respostas para os seus problemas e costumavam se automedicar sem consultar um profissional da área. Teimoso, o paciente discordou, afirmando que o papel do médico era insubstituível, mas que não fazia mal algum pesquisar um pouco e tirar algumas dúvidas.

Depois de dois meses de tratamento, aplicando um colírio especial e compressas quentes a cada meia hora, o problema persistiu e a pálpebra do sujeito continuou com aquela protuberância incômoda que parecia crescer quando ele ficava de mau humor. Então, o médico afirmou que o melhor seria uma pequena cirurgia para extirpar o mal de uma vez por todas. O paciente tremeu na cadeira, enquanto pensava na fria lâmina deslizando sobre sua pálpebra. Perguntou se não havia outra saída e o médico respondeu negativamente. Chegando em casa ele foi pesquisar na internet, ainda não convencido da opinião do médico. Por fim, resolveu consultar outro especialista. No dia da consulta, o médico preenchia a sua ficha enquanto o paciente esperava à sua frente. Encorajado pela demora, ele resolveu sugerir: “já tentei as compressas quentes e um colírio especial, creio que a melhor saída agora será a aplicação de um corticosteróide subcutâneo no local.” O novo médico olhou espantado para ele, sem saber o que responder.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 5/7/08. p.3)

Como comportar-se no ônibus

A previsão é que logo será quase impossível andar de automóvel em Florianópolis, e o transporte coletivo se tornará a saída mais imediata, já que não temos metrô ou outras saídas mais futuristas, como o teletransporte. Por isso convém passar aos marinheiros de primeira viagem estas breves dicas sobre este magnífico veículo.

Das informações - O cobrador, também conhecido como trocador, não deve ser repetidamente incomodado com perguntas como: “que horas o ônibus sai?”; “ele passa em tal lugar?”; “quanto é a passagem?”. Para isso temos o quadro de horários; o itinerário do ônibus e o valor da passagem, que geralmente está estampada em um quadro bem atrás do cobrador.

Do monopólio das janelas - O ônibus, também chamado de coletivo, deve ser tratado como tal. A janela que está logo acima da sua poltrona não é apenas sua, por isso não é correto fechá-la ou abri-la, dependendo do seu frio ou calor. Consulte antes os seus vizinhos de poltrona e os que estiverem em pé.

Da higiene pessoal - A sua higiene pessoal diz respeito apenas a você mesmo, a não ser quando começa a incomodar quem está ao seu lado. Principalmente no inverno, com todas as janelas fechadas, o coletivo é uma mistura de cheiros e perfumes dos seus ocupantes. Entre os animais, os predadores encontram as suas presas através do seu cheiro. Entre os humanos, existem momentos específicos para utilizar o cheiro como elemento da caçada e nem sempre o ônibus é o melhor local para isso.

Do equilíbrio - Aquelas barras de ferro no interior do ônibus servem para os passageiros se segurarem e não para reforçar a estrutura do mesmo. O veículo arranca, acelera e freia durante todo o trajeto. A melhor coisa a fazer, quando você estiver em pé, é segurar firme em uma destas barras, para se proteger e também evitar cair no colo de outra pessoa quando o ônibus fizer alguma manobra brusca.

Dos locais de parada - Diferente de um táxi, que pára onde você quiser, o ônibus de linha normal tem locais específicos para recolher e deixar os passageiros. Por isso não fique indignado se ele não abrir uma exceção para você. Todos têm pressa, todos querem chegar na hora e todos querem atenção especial.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 28/6/08. p.3)

Idéias em fuga

Esta semana minhas idéias pregaram-me uma peça. Apoiando os cotovelos sobre a mesa eu me esforçava para escrever o texto que deveria apresentar ao meu editor, me esforçava, mas de alguma forma as idéias haviam fugido. Antes de pegar minha boa caneta esferográfica e meu bloco de anotações. Antes mesmo de preparar minha xícara de cappuccino. Antes dessas ações corriqueiras eu tinha o texto todo estruturado em minha mente, como se fosse uma maquete eletrônica, um grande modelo arquitetônico em três dimensões. Eu o girava em minha cabeça, corrigindo certos pontos, acrescentando outros. Quando achei que ele estava pronto para nascer, quando me sentei para dar à luz a mais um filho, ele desapareceu, simplesmente sumiu. Olhei meu rosto estupefato no espelho de meu escritório. E agora? Para onde foram as idéias, como isso pode acontecer? Eu simplesmente não sabia. Resolvi então arejar a cabeça um pouco, era a única saída. Peguei meu casaco e fui dar uma volta no grande e belo jardim que se estende atrás de casa. Eu chamo aquilo de floresta, meu pai é que insiste em dar o nome de jardim. Andei um pouco e sentei-me recostado na grande jabuticabeira. De repente, enquanto viajava em meus devaneios mentais, um som um tanto esquisito chamou minha atenção, um som parecido com crianças brincando. Levantei-me e fui atrás daquele barulho de natureza peculiar. Então, ao chegar um pouco mais perto, vi a coisa mais estranha da minha vida. As minhas idéias, verdinhas, fazendo estripulias na relva. Escondi-me rapidamente para não espantá-las. Só então pude entender porque não havia conseguido escrever meu texto: verdes, minhas idéias ainda não estavam prontas para serem colhidas e colocadas no papel. Deixei-as sossegadas divertindo-se enquanto voltava aliviado para casa. Quando cheguei dormi um bom sono, e ao acordar podia sentir que as safadinhas já haviam voltado para mim. Eu podia senti-las pululando de um lado para outro em meu cérebro, prontas para serem jogadas no papel. Levantei-me, fui até o escritório, sentei em frente ao computador e liguei-o com um sorriso embriagado em minha cara.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 21/6/08. p.3)

Derrotista

Joe Sacco é um mestre em fazer jornalismo em quadrinhos e adora estar metido em áreas de guerra. Além disso, prefere sempre ouvir as vozes das minorias, dos menos favorecidos, criando obras politicamente críticas, mas nunca panfletárias. Seus primeiros trabalhos reconhecidos nesta área foram uma série de reportagens quadrinizadas que se transformaram no álbum Palestina, lançado no Brasil pela Conrad em dois volumes e vencedor nos EUA do American Book Award. Depois produziu Área de Segurança: Gorazde – A Guerra na Bósnia Ocidental 1992-1995, ganhador do Eisner Awards.

Mas o autor já ensaiava sua visão dos conflitos humanos bem antes do reconhecido sucesso. Derrotista é um misto de autobiografia com elementos underground, relatos de guerras e críticas escrachadas do estatus quo. Uma ótima introdução aos trabalhos de Sacco, onde podemos acompanhar também os seus conflitos interiores, sua insegurança, e seu humor ácido diante da miséria humana.

Se não bastasse isso, Sacco tem um domínio inigualável da pena, com cenas superdetalhadas, diagramações de página nem um pouco comportadas e belas cenas de página inteira em perspectiva tipo “olho de peixe”. Enfim, Derrotista é uma ótima introdução ao trabalho do jornalista e artista de quadrinhos.

224 páginas
Formato: 18 x 27 cm
ISBN: 85-7616-142-7

As malditas sacolas

Faz muito tempo que tenho antipatia por essas sacolas plásticas de mercado, antes mesmo das modas ecológicas. Tento utilizar nestes grandes supermercados a minha própria sacola de compras, a mesma que uso na feira, ou então a minha mochila, mas geralmente os seguranças pedem para deixar no guarda-volumes. Então acabo me rendendo às sacolas plásticas, porém procuro utilizar o mínimo possível, enchendo cada uma delas com grande quantidade de produtos. No entanto, os funcionários encarregados de empacotar a mercadoria dos clientes estão sempre próximos. Prontos para ajudar, eles utilizam uma sacola para cada produto. Não os culpo, provavelmente são alguns clientes que gostam de colecionar sacolas e fazem com que eles se comportem dessa forma.

Então, quando chega um dos empacotadores, eu o cumprimento sorrindo e digo educadamente: “pode deixar que eu mesmo arrumo, obrigado”. E eles se mostram assustados, por exemplo, quando coloco em uma mesma sacola um pacote de papel higiênico e um suco de laranja. Oras, os dois produtos já estão em suas embalagens próprias e o papel higiênico ainda não está utilizado, portanto qual seria o problema de colocá-los juntos?

Mas esta solução estava se mostrando cansativa, pois assim que o empacotador ia embora, surgia outro e se eu repetia o despacho, depois vinha outro e mais outro, até que o próprio caixa, impaciente com a cena, falava: “ele não quer ajuda”. Então passei a utilizar outro método, com o qual me incomodava menos, mas que devia incomodá-los mais. Não protestava enquanto o primeiro funcionário que aparecia começava a empacotar os meus produtos. Depois que ele saía, eu reempacotava tudo novamente, jogando para o lado o excesso de sacolas. Os caixas ficavam me olhando com cara de espanto enquanto eu executava calmamente o processo. Deviam me achar um chato, não tenho dúvidas. Minha próxima ação seria ir às compras vestindo uma camiseta que eu havia preparado, com os dizeres em letras grandes: “Deixe que eu mesmo empacoto!”. Minha surpresa foi o caixa me perguntar outro dia se eu não queria adquirir algumas sacolas retornáveis. Será que as câmeras registraram meu comportamento ou as coisas começaram a mudar?

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 14/6/08. p.3)

O universo de Franklin Cascaes

Ontem fui na Casa da Memória, no Centro de Florianópolis, no lançamento do livro 13 CASCAES, coletânea de contos que inclui Adolfo Boos Jr., Amilcar Neves, Eglê Malheiros, Fábio Brüggemann, Flávio José Cardozo, Jair Francisco Hamms, Júlio de Queiroz, Maria de Lourdes Krieger, Olsen Jr., Pérciels Prade, Raul Caldas Filho, Salim Miguel e Silveira de Souza, com depoimento de Peninha e ilustrações de Tércio da Gama.

Este é o primeiro título da Fundação Franklin Cascaes Publicações. Em todos os contos, Franklin Cascaes aparece de alguma forma, conduzindo o leitor através de uma Ilha de Florianópolis mística, habitada por crenças açorianas e principalmente bruxas. A qualidade gráfica da publicação é impecável! Em papel couche, com uma cuidadosa diagramação e ilustrações de Tércio da Gama e algumas do próprio Franklin Cascaes.

Delírios ecológicos

Vi algo que me chamou a atenção. Eu aproveitava o dia frio, mas ensolarado para voltar caminhando do meu almoço, comendo minha gelatina de framboesa com canjica. Parei no semáforo, em cima da primeira lista branca da faixa de segurança, quando vi aquele jovem ciclista, ziguezagueando pelo meio dos carros. Nada de novo até aqui, você concordará. No entanto, à medida que o jovem na bicicleta ia se aproximando, eu percebia alguma incongruência no movimento do veículo a pedal. O mesmo parecia estar desmontando, entortando, ou algo assim. Você sabe como nossa mente trabalha rápido, mesmo sem percebermos. Sabe também que a mente, mesmo aquela parte dela que faz esses cálculos e associações rápidas, pode ser contaminada pelo nosso entendimento e conhecimento da realidade? Pois bem, naquele microssegundo, naquela fagulha de tempo eu pude jurar – esta é a melhor forma de colocar em palavras meus sentimentos e decisões daquele instante – pude jurar que a bicicleta estava desmontando em pleno movimento. Houve também outra explicação rápida transitando em minha mente, algo que nem tenho mais certeza se pensei naquele momento, ou se estou criando agora. Concluí que o sol, combinado com alguma substância que havia acabado de almoçar, me proporcionaram a capacidade de ver a matéria sólida em movimento se decompor na frente dos meus olhos. No entanto, depois que o rapaz passou por mim pude perceber que era uma bicicleta flexível. Acompanhei incrédulo enquanto o sorridente ciclista fazia suas manobras, desaparecendo na próxima esquina, com sua bike que torcia em todas as direções. Quando cheguei em casa fui direto para a Internet pesquisar sobre aquela bicicleta. Em plena semana do meio ambiente, nada melhor do que uma bicicleta flexível para andar através desse nosso trânsito caótico e ruas sem ciclovias. Mas, depois de horas procurando não encontrei nada a respeito daquele veículo formidável. Agora estou convencido de que foi um delírio e que a bicicleta flexível não passa de um desejo por mudanças na forma como nos transportamos, dentro dos cockpits solitários dos nossos automóveis, vidros fechados e escapamentos a todo vapor.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 7/6/08. p.3)

Perdido em classificações

Venho tentando me organizar desde 1974, sem muito sucesso. Gavetas, pilhas, pastas, arquivos, fogueiras, classificações. Quando me disponho a colocar em ordem uma de minhas coleções de papéis, não sem antes tomar uma cerveja ou um calmante, pois o processo é realmente cansativo e altera meu humor, sei que o trabalho pela frente será árduo e depois de algumas horas provavelmente eu desistirei da tarefa e tudo estará perdido. A coisa começa realmente a ficar doentia no momento em que as categorias são criadas. Lembranças, xerox acadêmicos, folders e encartes de visitas a museus, contas… Mas então começam a surgir novas categorias, subcategorias ou então mesmo os papéis inclassificáveis. Receitas médicas, atas de reuniões de condomínio, anotações feitas ao telefone, manuais técnicos de eletrodomésticos, fotografias antigas, artigos de assuntos diversos… A certa altura, meu escritório está coberto de papéis, torres curvas e disformes.

Então comprei seis belas caixas plásticas para “arquivo-morto” e comecei a classificar meus papéis. Depois peguei meu bloco de notas e desenhei as seis caixas, descrevendo o conteúdo de cada uma delas com belas legendas coloridas.

Ontem, quando minha mulher me pediu um texto específico e falou “ah, esqueci que você nunca encontra suas coisas”, saquei meu bloco de notas do bolso e falei com autoridade: “Epa, vamos ver aqui no meu esquema”. E lá estava localizado o texto que ela queria: caixa cinco, após os folders das exposições de arte e antes das bulas de remédio – que podem parecer coisa de hipocondríaco. Mas, quando peguei a caixa, que deveria ser a quinta, lá estavam as multas de trânsito, as contas pagas e as lembranças de infância. Ela olhou pra mim, com aquele sorriso de “sabia que você não encontraria” e deu meia-volta. Da próxima vez vou lembrar de etiquetar as caixas por fora, pensei enquanto despejava todo o conteúdo no chão à procura do texto que ela queria.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 31/5/08. p.3)