A Revelação

Aos quatro anos de idade, o garoto finalmente descobriu: as pessoas morriam, deixavam de funcionar, apodreciam e desintegravam, sobrando apenas a armação que dava sustentação ao amontoado de carne, nervos, cartilagens… Ele ficou triste, chorou, inconsolável no colo do pai. Mas também ficou intrigado com aquela revelação e começou a registrar o nome que os adultos davam àquela coisa horrível: ir para a cucuia, empacotar, estuporar-se, dar com o rabo na cerca, ir para o beleléu, vestir o paletó de madeira, virar presunto, bater a caçoleta, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, desencarnar, desviver, dizer adeus ao mundo, ir desta para uma melhor, ir para a cidade dos pés juntos, etecetera e tal.

A decepcionante revelação veio de uma de suas manias. Ele adorava brincar com insetos e toda sorte de pequenos animaizinhos. Ele tinha uma aranha de estimação, a Maricota, que guardava em um viveiro feito com os restos de um aquário desativado. Costumava colocá-la para brigar com outras que achava pelo quintal ou nos cantos escuros da garagem. Certa vez, em uma das brigas, a aranha adversária envolveu completamente Maricota com sua teia gosmenta e antes que ele pudesse fazer alguma coisa, a outra aranha começou a sugar os líquidos vitais de Maricota. Tentando remediar a situação, ele jogou longe a adversária com um peteleco e começou a tirar a teia que envolvia a pobre Maricota. Depois de soltá-la, viu que continuava encolhida, tremendo, enquanto o veneno de sua algoz espalhava-se por seu sistema circulatório. Não pôde fazer mais nada, nem respiração boca-a-boca funcionaria. Permaneceu impotente ao seu lado enquanto a vida se esvaía de sua pequena carcaça. Por semanas olhou o viveiro abandonado, lembrando dos bons momentos vividos com sua aranha de estimação.

Depois disso, logicamente, ele percebeu que as pessoas eram tão frágeis quanto a Maricota. “Bola pra frente”, o pai falou, usando mais uma dessas expressões que o garoto não entendia bem. “Filho, a vida continua, não dá pra parar”. Ele engoliu em seco, enxugou as lágrimas e seguiu o conselho do pai: viveu sua vida, envelheceu e fez de conta que aceitou as regras do jogo.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 13/12/08. p.3)

Como viver junto

Durante o café, ela coloca o gravador em cima da mesa, aperta no record e ele pergunta:

— Pra que isso?

— Lembra que na segunda pela manhã você falou que iríamos ao cinema e à noite você falou que não havia prometido nada disso?

— Eu, não!

— Então, por isso que, a partir de hoje, antes de sairmos para o trabalho, vou gravar a nossa conversa, assim depois eu posso cobrar o que você fala e não cumpre.

— Mas isso é um absurdo, onde está a minha privacidade?

— Como assim? Só estamos nós dois aqui, só quero documentar o que você fala.

— E como é que eu vou saber que você não vai mostrar pra ninguém?

— Não se preocupe, vou utilizar apenas sete fitas, para gravar uma semana, depois volto a gravar todas por cima na semana seguinte. Não ficará nada arquivado.

— Sete fitas? Ficou louca, vai ficar gravando tudo o que a gente fala?

— Não precisa ficar histérico, já falei que vou guardar bem as fitas e não vou mostrar pra ninguém.

— Por outro lado, é bom que você grave mesmo, assim vamos ver as coisas que você fala e não cumpre.

— Como assim? Eu não sou como você, não, eu cumpro as minhas promessas.

— Essa é boa, tá parecendo político com amnésia. Lembra que você havia me prometido vestir aquela fantasia no sábado à noite e…

Ela rapidamente aperta o botão de stop do gravador e ele pergunta espantado:

— Mas o que é isso, por que parou a gravação?

— Que besteira que você estava falando, pra que é que eu vou gravar isso? E se alguém ouve a fita?

— Ah, muito bem, quer dizer que agora você está com medo que alguém ouça as nossas conversas, entendi. Agora eu já sei como sabotar o seu plano.

— Ah, assim não vale, assim você está apelando.

— Mas quem começou foi você, minha querida.

— Tá, tá bom, eu paro, mas isso foi jogo sujo seu!

No outro dia, durante o café:

— Querido, hoje à noite nós vamos ao cinema, não vamos?

— Vamos sim, prometo.

— Muito bem, então assine aqui.

— Como assim? Assinar o quê?

Ela lhe entrega uma ficha, com uma anotação contendo a data e o compromisso: “Quarta-feira, 19h — Ir ao cinema”.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/12/08. p.3)

Todo o tempo do mundo

A expressão “todo o tempo do mundo” pode ser uma armadilha, dependendo do ponto de vista. Um bom exemplo é aquela conta em aberto. Até o dia do vencimento, pode ser paga em qualquer banco e você acha que tem todo o tempo do mundo para resolver o assunto. Três da tarde do fatídico dia e você percebe que tem mais uma longa e infinita hora pra pagar a conta. Dá pra fazer muita coisa em uma hora, você pensa. Você pode ler um livro completo, assistir a um filme, escrever um romance, viver uma vida! Até que você decide — tarde demais — correr até o banco e dá com a cara na porta, enquanto o guarda, com expressão séria, recusa a sua entrada na agência. Você desiste, afinal é sexta-feira. Na segunda-feira, além de pagar multa por atraso e juros de três dias, você vai ter que ir à procura daquele banco que está no boleto, do qual nunca ouviu falar, e que provavelmente tem apenas uma agência na cidade, longe pra danar. Mas, na caminhada, você acaba descobrindo lugares diferentes na cidade.

Ou então é sábado e depois de meses chovendo finalmente deu um dia de sol em Florianópolis. Você decide beber uma cerveja com os amigos naquele barzinho no Morro das Pedras, 2h da tarde, quando alguém lembra do inevitável: “Melhor voltarmos logo, todo mundo resolveu aproveitar o sol e lá pelas 5h o trânsito fica parado até o trevo do aeroporto”. Você olha pro copo de cerveja, olha para as ondas quebrando na praia, e responde que o melhor é aproveitar a cerveja, pois vocês têm todo o tempo do mundo. Duas horas depois você resolve debandar e descobre que duas horas de prazer custaram outras duas de incomodação no crescente engarrafamento de Florianópolis. Mas, enquanto dirige vagarosamente o carro, acaba percebendo uma bela casinha à venda.

No final das contas, você tem seus oitenta e tantos anos e está lá sentado numa boa, apreciando um belo pôr-do-sol à sua frente, naquela casinha que comprou décadas atrás. Você chega até a fazer aquela analogia, do sol se pondo e da sua vida se esvaindo e lembra de todas as coisas que ainda precisa fazer na vida. Boceja e pensa tranquilamente: “Mas que pressa a minha, melhor esperar essa beleza de pôr-do-sol, afinal, ainda tenho todo o tempo do mundo”!

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 29/11/08. p.3)

Febre da desova

Com um pouco de espanto contido ele deparou-se com a febre da desova. A febre da desova pode ser percebida quando o fígado diz com veemência, depois de uma bela noitada: “aprume-se e ponha-se a caminho de casa”! Claro, isso depois de muita insistência e choradeira. Nesse momento a febre da desova já apresenta seus primeiros efeitos colaterais: boca seca e perda do intelecto. O indivíduo acredita ser possuidor de teorias mirabolantes que podem mudar completamente o sentido de toda a realidade. Algumas pessoas acreditam que a febre desperta certas capacidades adormecidas no cérebro humano, como a telepatia e o tele transporte. Mas a maioria dos afetados pela febre acaba confundindo delay com tele transporte. Junto com a febre da desova vem o consumo indiscriminado de álcool e alimentos com alto teor de gordura. Até hoje não se sabe se isso é resultado de efeitos colaterais psicológicos ou químicos. O fígado clama por paz e sossego afinal. Com poucas chances de viver bombardeado por todos os lados ele promete arrumar as malas e partir caso o doente não tome vergonha na cara.

Do Atlântico ao Pacífico de bicicleta

No dia 28 de novembro de 1998, junto com os amigos Rodrigo Guedes e George Ferreira, eu saía pedalando em uma aventura rumo à região litorânea do Chile, do outro lado do continente sul-americano. Percorremos 3.000 quilômetros naquelas quatro semanas maravilhosas, conhecendo pessoas e lugares com a ajuda das nossas bicicletas. Desde então, almejo fazer uma aventura similar, mas os compromissos nunca me permitiram. O antigo site da aventura (um dos primeiros sites que fiz, por isso mesmo antiquado, assim como o texto) continua no ar, pra quem quiser conferir. Dez anos passam rápido, mas aqueles dias continuam tão claros em minha memória como se fosse ontem.

A catástrofe e o turismo


Charge de Frank Maia, via Xinelão Studio.

Enquanto a chuva castigava nosso estado, nosso excelentíssimo governador, fantasiado de colete de resgate, mas tomando o cuidado para não se molhar, parecia mais preocupado com o impacto para o turismo do que com a vida dos milhares de afetados nas enchentes do estado. Então, na quarta-feira, em notícia do UOL, li uma frase do LHS, que foi a gota d’água, como se já não tivesse água o suficiente nas cidades inundadas. A toupeira simplesmente falou que “O Brasil está solidário com Santa Catarina e vamos reconstruir o que for necessário para receber os turistas na temporada de verão”. Li novamente aquele absurdo, com todo o cuidado, pois parecia irreal, mas infelizmente não era. No mesmo instante fui colar a dita cuja lá no meu Twitter e encontrei uma legião de indignados com a falta de respeito de LHS. Como falou um comentador no blog do César Valente, “LHS tem preocupação maior em atender a demanda de meia-dúzia de empresários, por isso a insistência no assunto. É só fazer uma retrospectiva dos atos dele (recentes ou não). A grande maioria é voltada invariavelmente para essa ‘meia-dúzia’”.

Mas, o momento agora não é falar dos nossos desgovernantes, mas sim ajudar quem está precisando. Podemos ajudar de várias maneiras: com doações em dinheiro, roupas, alimentos e até mesmo sangue. Existem vários postos de coletas de donativos em supermercados, postos de saúde,centros comunitários e até postos de gasolina. Além disso, você pode acompanhar vários blogs que estão divulgando informações sobre as enchentes e os desabrigados, como o Diarinho da Chuva; o Coluna Extra, do Alexandre Gonçalvez e o já citado De Olho na Capital, do César Valente.

Quanto às doações de sangue, uma amiga, Ana Carolina, enviou a seguinte mensagem:

Conversei com o pessoal do Hemosc daqui de Floripa e eles me disseram que estão abastecendo os postos de sangue de Blumenau e Itajaí. Os hospitais das cidades atingidas pela chuva estão precisando de sangue para os feridos na tragédia. Portanto, mais do que nunca, é importantíssimo doarmos…

Mas, fique atento, como sempre acontece, tem mau-caráter se aproveitando da desgraça dos outros. Alguns criminosos já estão enviando e-mails com falsas solicitações de ajuda e doações. Quando clicamos nos links relacionados nestas falsas mensagens, o computador é infectado por um vírus que rouba informações sigilosas. Veja como é uma dessas mensagens falsas nesse link do De Olho na Capital.

E pra quem ainda não está convencido do tamanho da catástrofe, tem vários canais na internet publicando vídeos e fotos dos locais inundados, como o Sambaqui na rede, do Celso Martins da Silveira Júnior. Também no UOL, logo na capa, não faltam notícias e imagens sobre a catástrofe.

O Avaí está na primeira divisão

campeonato de sadoku em singapura

Fiquei sabendo que no último dia 15 de novembro ocorreu em Singapura uma competição mundial de sudoku, um jogo onde o objetivo é a colocação de números de 1 a 9 em cada uma das células vazias numa grade de 9×9, constituída por 3×3 subgrades. Parece um jogo metódico, mas instigante e talvez um dia acabe entrando nas olimpíadas, assim como o xadrez está presente nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC). Algumas pessoas jogam ou apreciam sadoku, outras, xadrez e muitas outras, futebol. Dos três jogos, o único que entendo é o xadrez. As regras do sadoku são tão estranhas para mim como são as do futebol.

Semana passada, enquanto aproveitava uma trégua da chuva para caminhar, passei por um simpático boteco, que sempre tenho vontade de entrar, mas nunca tenho sede no momento em que passo por ele e por isso vou prorrogando a visita. Chama-se Bar do Pierre e fica aqui em Campinas, São José. Muitas vezes o bar transborda, passa para o lado de fora de suas paredes e invade as calçadas de esquina com cadeiras e mesinhas plásticas. Nesse dia ele estava assim, lotado, com vários dos seus freqüentadores usando a camisa de um time de futebol, que passei a conhecer melhor nos últimos dias, por incapacidade de desligar meus canais auditivos em lugares públicos.

Há alguns anos passei uma semana no Rio de Janeiro, em um albergue localizado bem no centrão. Foi uma semana antes do carnaval e voltei para Florianópolis antes da grande festa começar. Na ocasião, o albergue estava lotado e eu era um dos poucos brasileiros. Havia chilenos, argentinos, alemães, estadunidenses, dinamarqueses, australianos… Uma noite fizemos uma festinha no albergue e fui eleito, como representante legítimo da terra, para fazer a caipirinha. Então, o Ashbery, um amigo australiano que fiz na ocasião, perguntou-me porque eu não iria ficar para o carnaval. Respondi que não gostava da festa e por isso voltaria para casa antes dos desfiles. Ele ficou um pouco admirado com a minha resposta e dali a pouco estava me perguntando sobre futebol. Falei que também não apreciava nem acompanhava este esporte. Naquele momento ele me perguntou, surpreso: “but… aren’t you Brazilian?”

Sim, os estereótipos existem, não há como fugir deles. Recriminam quem usa em excesso os estereótipos, mas eles estão aí. Como pode um brasileiro não gostar de carnaval ou futebol, pensou meu amigo australiano. Naquele momento eu fazia, com orgulho, o papel de destruidor de estereótipos. Penso que cada um pode gostar do que quiser. Meu esporte preferido tem a ver com bicicletas, não com bolas. Se o Ashbery me perguntasse a respeito de campeonatos mundiais de mountain bike e downhill, eu poderia responder com autoridade. Falaria sobre os campeões brasileiros e catarinenses e sobre as novas tecnologias das magrelas, que estão a cada dia mais sofisticadas, rápidas e seguras. Mas, sou brasileiro, então as palavras chaves que ecoavam na cabeça do Ashbery eram “carnaval” e “futebol”. Talvez, também “Amazônia” e “caipirinha” e pelo menos esta última eu conheço e sei fazer, portanto escapo do perigo de ser deportado.

No dia 11 deste mês, lá pelas 17h, precisei ir à UFSC. Saí do Kobrasol, onde moro, e peguei a Via Expressa que, durante horários específicos do dia, não é tão expressa assim. Então, comecei a ver vários carros carregando bandeiras de um time de futebol, buzinando e fazendo festa. Não entendi exatamente o que significava tudo aquilo e achei que o time das bandeiras já era campeão de alguma coisa. Depois de passar a ponte e chegar ao outro lado do túnel de Florianópolis, avistei lá na frente, mais ou menos na altura do Armazém Vieira, um grande engarrafamento se formando. Concluí que ainda não havia um campeão e provavelmente a decisão aconteceria naquela noite, no estádio de futebol perto do aeroporto. Nesse momento eu já havia percebido que as bandeiras daquele time estavam espalhadas por toda parte. Fachadas de casas, camisetas dos pedestres, sacadas de apartamentos e tudo mais. Provavelmente, os torcedores deviam fazer aquele complexo ritual toda vez que havia jogo naquele estádio, foi o que pensei.

Fiz o que precisava na UFSC e voltei pra casa. Naquela mesma noite, não lembro exatamente o horário, comecei a ouvir uma grande festa na rua. Tem uma pizzaria aqui perto onde o pessoal reúne-se para assistir futebol em um telão e fazer festa dependendo do resultado. Mas naquela noite a festa era muito maior do que nas outras ocasiões e havia carreatas na avenida central do Kobrasol; gente buzinando e mesmo ouvindo uma música alta que exaltava Florianópolis. Lembro de algo tipo “minha ilhaaaaa,  formosaaa…”. Parecia final de copa do mundo.

Perguntei para a Leila se ela sabia o que estava acontecendo e ela falou que a música era o hino do Avaí, time de futebol de Florianópolis. Depois ela me disse que naquele dia o time finalmente havia passado para a primeira divisão, depois de 30 anos de jejum. Eu nem sabia que existia esse negócio de primeira e segunda divisão no futebol, mas ela me explicou como funcionava. Naquele instante, como em uma epifania, finalmente entendi todas aquelas ocasiões em minha vida quando ouvi as pessoas falando sobre esse assunto, dizendo que esse time estava na primeira e aquele estava na segunda divisão.

Mas, como eu falava lá no início, passei pelo Bar do Pierre na semana passada, lotado de freqüentadores que comemoravam o que eu finalmente sabia o que era — a passagem do Avaí para a primeira divisão. Eu estava na calçada do outro lado da rua e na minha frente, em sentido contrário, vinham pai e filho com a camisa do Avaí. Exaltados, quando os freqüentadores do Bar do Pierre avistaram aquela bela cena familiar, começaram a cantar o hino do time vencedor. O pai pegou o garoto, colocou-o nos ombros e começou a dançar, mostrando alegremente que pai e filho compartilhavam daquela alegria. Naquele momento me senti apenas um observador, um estrangeiro, e lembrei do Ashbery me perguntando se eu realmente era brasileiro.

Adeus às armas

O amolador de facas corre desesperadamente pelo calçadão da Conselheiro Mafra. Vira na esquina com a Deodoro, tropeça, cai, levanta, olha para trás preocupado, continua correndo e vira na Felipe Schmidt. Os pedestres não entendem o que está acontecendo, apenas olham, riem do amolador de facas ou fazem caretas enquanto o louco corre sem parar.

Alguns metros atrás do amolador de facas, derrubando tudo e todos no caminho, estão dois caçadores, desses que caçam animais selvagens na África. Com chapéu de pele de bicho morto na cabeça, espingarda de caça na mão e sorriso sádico decorando o rosto.

Os caçadores que perseguem o amolador de facas são colecionadores de cabeças e precisam completar suas coleções. Alguns dias atrás, eles estavam em um barzinho no Mercado Público, bebendo cerveja, comendo iscas de peixe e conversando sobre suas caçadas anteriores, até que um deles lembrou:

— Preciso da cabeça de um amolador de facas. Ficaria ótima em minha sala de estar.

O outro caçador respondeu, animado:

— Boa lembrança! Também preciso de uma. Vamos aos rifles!

A caçada prossegue, e na praça XV o amolador de facas é encurralado com um caçador de cada lado. Com os rifles apontados em sua direção, o amolador de facas pergunta desesperado:

— O que vocês querem de mim? Por que estão me perseguindo? Se foi alguma faca que não ficou bem amolada, posso refazer o serviço, garanto!

Um dos caçadores responde, ainda ofegante:

— Caçamos e colecionamos cabeças…

O outro caçador toma a palavra:

— Nossa coleção está quase completa, mas ainda precisamos da cabeça de um amolador de facas!

O amolador de facas olha amedrontado e pergunta aos caçadores, como última saída:

— E por acaso vocês já têm a cabeça de um caçador?

Os dois caçadores param por um instante, entreolham-se com os cantos dos olhos, vão se virando um para outro devagarzinho…

O amolador de facas abandona a cena tranquilamente, enquanto ouve o som dos tiros às suas costas.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 22/11/08. p.3)